Retalhos

Sábado , 29 de Março

Eu não ligo mais.

O telefone toca...

Acordei com gosto de guarda chuva na boca. Uma experiência nada legal.
Minhas articulações pareciam ranger e eu sentia uma dor lancinante no pescoço. Os olhos se recusavam a abrir, e ardiam como se vidro despedaçado estivesse sobre eles.

Com algum esforço eu me levanto do sofá. Na casa em que vivo, o lugar mais confortável que tenho para dormir é a cama nova no quarto. Só que raramente eu consigo chegar lá. Geralmente eu tropeço na mesinha da sala, e acabo "desmaiando" aqui no sofá mesmo. Só dormi umas duas vezes na cama.

Eu ainda estou com a mesma roupa de ontem. Roupas de trabalho. Não uso uniforme, porque lá na firma ninguém usa uniforme. O meu serviço é pesado, mas é bastante fácil, é só colocar aquela peça pesada na esteira, enganchar as correntes, e apertar o botão.
Eu poderia fazer isso de olhos fechados, porque eu sou muito bom nisso. Na verdade, às vezes eu faço isso de olhos fechados.
Meu turno é o da noite, e apesar de nunca dormir muito, sonhar é bom... E eu sonho assim mesmo, de pé, acordado, trabalhando pesado.

O telefone toca.

As roupas do trabalho são boas de se trabalhar com elas, porque afinal é pra isso que elas servem. Mas elas são péssimas de se dormir no sofá. Deixa o corpo todo marcado, e é meio sufocante às vezes. Mas eu nem ligo mais.
Eu não ligo mais pra um bocado de coisa... Não ligo mais para os calos que se formam em minhas mãos, no começo eles doíam, mas agora são eles que impedem que eu sinta dor no manejo das ferramentas lá na firma. Não ligo mais para os pombos que vivem fazendo ninho no meu telhado, antes eu ralhava, agora nem isso. Não ligo mais para o jornal que ficou entulhado no meu quintal, até que eles cortaram a assinatura por falta de pagamento... Não ligo mais pra cobranças mesmo. Não ligo mais pra poeira que se junta sobre os meus troféus de boxe. Não ligo mais a TV... Até que gostaria de ligar, mas ela queimou e eu não ligo mais pra concertos pequenos.

Mas eu ligo sempre para o meu pai.
Meu pai mora em outra cidade em uma casa de repouso. A melhor que eu pude pagar com o meu dinheiro, todo ele. Meu pai sofre de um problema de memória, com um nome estrangeiro. O negócio é que ele sabe que tem um filho, mas nunca se lembra que seu filho sou eu. Sempre que falo com ele, eu tenho de me apresentar de novo.
No começo, era frustrante... Mas hoje eu não ligo mais. As vezes, eu conto uma história, uma mentirinha qualquer sobre eu ser bem sucedido, rico e tudo mais. Outras vezes eu conto pra ele os sonhos que eu tenho no trabalho, esses são os que ele mais gosta de ouvir, não sei bem porque, mas isso me mantém sonhando... E sei que quando eu conto a história ele vai ficar feliz em tê-la ouvido pelos próximos 5 minutos, até esquecer que estava ao telefone com o filho.

O telefone toca.

Teve uma vez que eu sonhei que tinha um cara morto no meu quintal, de cara no chão. Eu virei ele, e quando fui ver... O cara era eu. Um sonho bastante bizarro! Esse não contei pro meu pai. Acho que ele não ia ficar feliz...

Toda vez eu tropeço na mesinha do centro aqui da sala. Eu devia tirar ela daqui... Mas eu nem ligo mais.
Fazia tempo que eu não recebia uma ligação, e curiosamente o telefone estava tocando.

Eu atendo com uma voz rouca, de quem acabou de levantar. Algo meio inconsciente pra demonstrar a minha insatisfação.
A voz do outro lado é de uma mulher, ela parece aflita. Pergunta-me se eu sou eu, e eu digo que sim.

Ela fala que meu pai está passando mal, e está chamando por mim. Pelo meu nome. Por um instante eu fico feliz ao saber que ele se lembrou de mim, mas em seguida um desespero me abate. Meu pai está morrendo.
E de todas as coisas, ele é a única pra qual eu ligo.

Eu tenho de estar lá. Eu preciso segurar a sua mão e beijá-la e contar uma história, e ouvir o seu risinho sufocado.

Pego as chaves do carro na mesinha da sala. Saio correndo feito um louco. Não me importo com sinais de trânsito, com leis, com nada.
Piso fundo e só consigo pensar no papai.

Não me preocupo de entrar na zona mais barra pesada da cidade, o caminho é mais curto por aqui, e tempo é uma questão vital.
E a vida, é uma coisa muito frágil. Infelizmente, frágil também era a cachorrinha que pulou na frente do meu carro.

Eu quando eu a vejo ali, parada... Hipnotizada pelos faróis do carro, eu sei que não vai ter como desviar. Eu perderia o controle a essa velocidade.
Tudo que eu faço é segurar firme no volante, e torcer para que ela não tenha sofrido. Pobre animal...

Eu pararia, porque eu gosto muito de animais... Mas eu não ligo mais.

Eu só ligo pro meu pai.

 

CONTINUA...
Fim da parte 2.



Eu havia dito que não ia fazer uma sequência, assim logo de cara. Mas acabou que eu fui sedendo.
De qualquer maneira, a história ta tomando consistência.

Espero que gostem e seus comentários são bem vindos!

Ouvindo>>> "Nocturne - Happy"


Escrito por Tuan às 19h45
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Quinta-feira , 27 de Março

Tempo livre


No meu antigo emprego, programar o tempo livre era uma tarefa muito difícil.
Não podia estudar, nem me divertir... Nem nada!

Era viver para o trabalho, me estressar e gastar todo o meu dinheiro na livraria em que eu trabalho agora. Enfim, um investimento que agora vai ter retorno! Rê, rê!
Mas era um saco aquela época, e eu vivia me martirizando por não ter a possibilidade de fazer nada.
Só vivia moído em casa.

O que mudou agora, que eu tenho um emprego bem mais legal, no horário comercial?
Nada! E isso muito ruim!!

Descobri que o problema não é externo... Sou eu, que me bloqueio. Que não me permito evoluir.
Mas isso vai mudar!! Ah se vai.

Ontem e hoje, estive pensando em tudo que eu podia fazer para manter o meu dia atarefado, a minha mente ocupada e a minha conta bancária vazia.
As conclusões foram bastante... inconclusivas!

Pugilismo é uma parada que eu amo de paixão! Sempre amei, e também sempre tive vontade de praticar e não só acompanhar. Fiquei sabendo de uma ou duas academias que ofereciam treino. Eu me empolguei e tudo mais, mas eu não sei se vai rolar. Além do fato do meu físico ser comparável com o de uma minhoca morta (seca, torta e sem mobilidade), chegar no trabalho com o olho roxo não ia pegar bem. É uma possibilidade remota, mas ainda não está descartada.

Estudar uma nova língua foi uma das primeiras coisas que me veio a mente. Sempre gostei de aprender novas línguas, e eu definitivamente devo aproveitar esse meu tempo livre pra melhorar nesse aspecto. Alemão, Italiano, Mandarim, Francês... por onde começar?  Alguma coisa eu sei que vou fazer!

Curso de Web Design é uma coisa que eu sempre tive vontade de fazer. Meu pai nunca apoiou essa idéia, porque dizia que isso é hobby e não profissão. Agora quando ele abre o jornal, e vê várias vagas para web designers ele se arrepende, eu acho. Mas enfim... Agora que eu tô podendo me bancar(?), um curso nesse estilo ia ser uma ótima oportunidade de expandir os meus horizontes e desenvolver as minhas habilidades. Além de tornar esse blog humilde em uma parada mais atrativa. A sorte esta lançada... A próxima vez que o meu nome for sorteado(essa semana) eu vou aceitar fazer um tour na escola de informática e discutir valores.

Ciclismo é bastante divertido. E eu sempre pratiquei meio que pela tangente. Sou um feliz propritário de uma "duas rodas tração humana", e nunca deixei falarem mal das magrelas. Estive pesquisando e encontrei esse Site massa que ensina bastante coisa bacana sobre como pedalar feliz da vida. Se eu encontrar a minha bicicleta ideal, só vai dar eu subindo e descendo pelas ruas dessa cidade que é um morro só...

Escrever um livro sempre esteve nos meus planos. Escrevo um pouquinho aqui e ali... Mas nada que possa de chamar de um projeto. Quem sabe mais pra frente, quando eu tiver uma boa história para contar.

World of Warcraft... Aaah! Seria o fim da vida social, e o início de uma empreitada nerd em busca do alter ego virtual perfeito, ou não. Desde que seja divertido. Ouvi dizer que a comunidade Brasileira no Wow está crescendo, e que compensa muito mais jogar no oficial, do que nesses piratas meia boca. JOIN THE HORDE!

Mas eu ainda não me decidi... Talvez eu faça tudo isso. Talvez eu faça nada disso... Mas uma coisa eu tenho certeza, tô precisando de uma compania!

Ouvindo>>> "Dominguinhos - Isso aqui tá bom demais"


Escrito por Tuan às 21h53
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Olá, posso ajudá-lo?!


Só ta dando uma olhadinha?
Então fica a vontade!

Minha rotina é mais ou menos essa agora.
Trabalhar em uma livraria é bem diferente do que eu imaginava que ia ser. Estar do lado de lá (ou de cá, não sei mais) é uma experiência bastante divertida.

As minúcias do serviço, que geralmente passam despercebidas pelo grande público, e que definitivamente passavam despercebidas por mim quando cliente, fazem do dia a dia uma aventura diferente.
Mas existem coisas que são sempre iguais... Como aquele cliente que vai lá todo dia, e por isso tem direito a cafézinho na faixa, aquele menininho que acompanha a mãe e que por acaso sempre encontra sem querer uma bexiga, no mesmo lugar que encontrou no dia anterior. O pessoal de editoras falando de prazos e datas de consignações. O pastelzinho de queijo e a garrafinha de Cola que eu comi 5 dias seguidos no almoço...

Enfim!
Minha vida está mudando, e eu acho que pra melhor. Tô aprendendo muita coisa que me vai ser útil no futuro. E conhecimento, é algo que nunca vão me tirar.
O meu salário... hum, vamô mudá de assunto né!

Ouvindo>>>  "Jonathan Coulton - Still Alive"
Escrito por Tuan às 21h03
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